A sexualidade e a Bíblia
A Bíblia e a sexualidade? Há temas que são um pouco forçados. Este, à primeira vista, parece ser um deles…
Será mesmo assim? Abro a Bíblia e faço uma descoberta inesperada: nesta colectânea de textos em que se baseia a nossa fé, na Sagrada Escritura,como costumamos apelidá-la, a sexualidade está presente em muitas e muitas páginas. Não propriamente como tema explícito, mas sim como um fio subterrâneo, como uma parte óbvia e integrante da vida humana – comparável à alimentação, por exemplo.
Esta presença não se resume – como se poderia pensar, talvez – a regras de conduta e moral sexual. Bem pelo contrário: encontramos um leque de tudo o que é possível e impossível nesta matéria, tão amplo que facilmente faz enrubescer a cara de almas mais sensíveis, até nos nossos dias (que, neste campo, nos habituaram a muito). Vejam só:
Há a encantadora e comovente história de Jacob e Raquel, com Lia, inesperada e não desejada, pelo meio. Lemos de Abraão e Sara, à espera de um filho que demorara em fazer-se anunciar – e a expulsão de Agar. Temos o maravilhoso e surpreendente Cântico dos Cânticos, impregnado de sensualidade e eros no melhor e verdadeiro sentido da palavra.
E eis assuntos tão fascinantes como a paixão e o namoro e outros tão delicados como a poligamia, a esterilidade, a inveja, as mães de substituição (“barrigas de aluguer”, na insuperável linguagem das telenovelas), para destacar apenas alguns.
Mas há mais e há melhor: quando em tempos contei a crianças a história de Rute a “pernoitar” na eira de Boas, comentaram com olhos incrédulos: – Mas isto é engate do melhor! E isto vem na Bíblia? Ainda não tinham lido sobre David e Batseba (1), desconheciam as histórias de Dina e de Tamar (2), não imaginavam as artimanhas das filhas de Lot (3), nem que alguém fizesse passar a esposa por irmã, para salvar a sua própria pele (4). Assédio sexual, “facadas no casamento”, prostituição, violação, incesto – a lista é longa e longe de acabar aqui. E vai do mais belo (leia-se Oseias a falar de Deus e Israel em termos de uma relação amorosa entre homem e mulher) até ao mais abominável. Ou seja: reflecte todo o amplo leque da realidade da vida humana, sem tirar nem pôr.
E agora? Que conclusões tirar daí?
Em primeiro lugar: a velha ideia puritana, que teria preferido banir da igreja, da teologia e da vida qualquer noção de sexualidade, pouca base encontra na Bíblia. A sexualidade faz parte da vida que Deus nos deu ao criar-nos homem e mulher (Gen 1). Como outros aspectos da nossa vida, ela traz-nos alegria e satisfação, mas também desafios, responsabilidade e, por vezes, sofrimento.
Segunda conclusão: não basta citar passagens bíblicas para fundarmos a nossa posição face a determinadas questões polémicas da atualidade. De facto, não há outro campo, provavelmente, em que a Bíblia seja usada de forma tão aleatória, procurando (sem admiti-lo, porém) cada um o texto que mais lhe convém enquanto ignora alegremente os menos convenientes. O que é um procedimento claramente inadequado. Pois reduz o Evangelho a uma espécie de código moral e, mais grave ainda, muitas vezes leva a justificar, em nome de Deus, posições morais que, bem vistas as coisas, não passam de opções pessoais. (Não acredita? Então veja a controvérsia sobre questões como a bênção de duas pessoas do mesmo sexo…).
Qual a alternativa, então?
Longe de poder (e querer) apresentar “soluções”, muito menos no limitado espaço deste artigo, decidi partilhar convosco uma descoberta que me é muito cara. Sugere Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios (6,15.20), que os nossos corpos (!) são “membros de Cristo” e “templo do Espírito Santo”. Ou seja, ao contrário daquilo que tantas vezes se insinuou, ao longo de 2000 anos de cristianismo, o nosso corpo não é em primeiro lugar “porta do pecado”, nem é ele o grande e principal obstáculo para a salvação (5) mas sim: morada do Espírito Santo! Do Espírito de Deus que se incarnou em Jesus Cristo. Ser templo do Espírito de Cristo, para mim quer dizer: usar o nosso corpo, a nossa alma, todo o nosso ser, para responder ao Amor de Deus, para anunciar e construir, com as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração e a nossa cabeça o Reino de Deus.
Junto do nosso próximo (vestindo o que não tem vestido, alimentando aquele que está com fome, curando o doente) e, claro, também nas nossas relações mais íntimas, em todo este vasto campo a que nos habituámos a chamar de sexualidade.
1 2 Samuel 11;
2 Génesis 34 e 38
3 Génesis 19,30 ss
4 Génesis 12,10 e 20, 1ss
5 Agostinho, no séc. IV, afirmara que o “pecado original” se transmite pelo acto sexual. Esta ideia, embora muito influente ao longo da História, não tem base bíblica.