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Martinho Lutero e o Ecumenismo

Com este título, quantos leitores não levantarão a pergunta: o que é que Lutero tem a ver com o ecumenismo? Nada, dirão muitos! Será assim, pergunto eu? A resposta a estas questões será sim e não! Sim para os que se limitam ao contexto do tempo de Lutero em que não havia qualquer possibilidade de diálogo entre diferentes igrejas cristãs dado existir uma única, a de Roma, ainda que com vários adversários como os chamados pré-reformadores, ou os muitos descontentes da própria Igreja Romana. Mas a resposta será outra se o nosso contexto for o dos últimos cinco séculos, os que foram celebrados, e ainda o estão sendo nos nossos dias nas comemorações do 500° aniversário da Reforma protestante.

Ainda que nos seja difícil identificar uma data que nos indique o início do movimento ou do diálogo ecuménico, poderemos dizer que o mesmo pouco mais tem do que um século de existência e é nele que inserimos os parágrafos que se seguem tentando partilhar com os leitores o quanto devemos a Lutero pelo que somos e temos hoje, tudo muito diferente do que era possível no século XVI. Vejamos então algumas das realidades atuais do movimento ecuménico que, direta ou indiretamente, são resultado de três grandes temas da Reforma iniciada há 500 anos.

1. Sola Scriptura – a centralidade e autoridade da Bíblia na Igreja é um princípio fundamental da Reforma. Isto faz com que todo o cristão esteja submetido ao seu ensino e coloque em segundo lugar as mensagens e interpretações das autoridades eclesiásticas sejam elas individuais (Papa, Bispos, Presbíteros, Diáconos, teólogos, catequistas, etc.) ou coletivas (Concílios, sínodos, comissões, paróquias, seminários, etc.). As Sagradas Escrituras são normativas para a Igreja, para todo o seu povo e para cada crente individualmente.

Lutero não teve quaisquer dúvidas a este respeito. Como professor de exegese bíblica sabia muito bem o valor que a leitura das Escrituras tinha para todos que o praticassem. Só que não eram muitos que o podiam fazer. Possuir um exemplar da Bíblia exigia ter muito dinheiro e saber latim! Sendo conhecedor desta realidade, Lutero não hesitou e iniciou a tradução dos textos sagrados para a língua do povo, o alemão. Este trabalho foi repetido em muitos outros países chegando ao nosso com João Ferreira de Almeida.

Muito haveria a dizer sobre este assunto, mas quero terminá-lo com dois exemplos ecuménicos visíveis nos nossos dias: A) Não é verdade que o tema da Sola Scriptura tem uma aceitação generalizada em todo o mundo cristão? Será que a Bíblia pode estar ausente nas reuniões ecuménicas sejam elas de carácter litúrgico, teológico ou cultural? Não é verdade que na própria Igreja Católica Romana, que chegou a desencorajar e proibir aos seus fiéis a leitura dos textos sagrados, tem hoje uma posição muito diferente? B) E que dizer das várias versões ecuménicas feitas por teólogos e linguistas, católicos romanos e protestantes, não só no nosso país, mas em muitas dezenas de países espalhados pelo mundo?

2. Sola Fides – Buscando a verdade divina para a sua vida, Lutero começa a enfrentar uma série de erros que tinham origem nas mensagens e na ação das hierarquias eclesiásticas, desde o padre até o papa, afirmando que elas não têm nada de infalibilidade. Como nunca foi sua intenção separar-se da sua Igreja, nem de criar qualquer alternativa à mesma, decidiu lutar contra ela com o desejo de corrigir os seus erros. Uma das suas ações mais conhecidas é a que travou contra a venda das indulgências, que são a base das suas 95 teses afixadas publicamente no dia 31 de outubro de 1517.

Esta luta foi longa e terminou com a sua excomunhão da Igreja e expulsão do império (Bula Decet Romanum Pontificem, do papa Leão X de 3 de janeiro de 1521). O que fez Lutero para merecer tal castigo? Disse que a salvação nos é dada apenas pela fé e é um dom de Deus: “… o justo viverá pela fé” (Rom. 1: 16-17). Neste sentido a fé e a graça divinas são inseparáveis. “É pela graça de Deus que fostes salvos por meio da fé e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não é o resultado das vossas obras, para que ninguém se vanglorie”. (Efésios 2:8-9)

Os longos anos do diálogo ecuménico entre a Igreja Católica Romana e a Federação Mundial Luterana, terminou com a aceitação recíproca da doutrina da justificação pela fé, ao qual se juntou a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas.

Não foi também Lutero que iniciou este caminho ainda que o diálogo ecuménico fosse impossível no seu tempo?

3. Sola Gratia - “A salvação é alcançada apenas pela Graça de Deus em Jesus Cristo”, esta era a afirmação que o reformador fazia sempre que estava em causa a questão da validade e da contribuição das obras e do esforço humano para garantir a vida eterna. “O ser humano nada pode fazer para obter o perdão de Deus; recebe-o com humildade, como uma espécie de amnistia divina, apenas da Sua graça e sem nada poder fazer para merecer a salvação”. Lutero viveu existencialmente a questão da venda das indulgências, que era entendida como preço a pagar para alcançar a vida eterna ou como Johanes Tetzel (dominicano alemão, 1465-1519) dizia, “quando a moeda bater no fundo (da caixa das ofertas) a alma sai do purgatório”.

Será que a mensagem da Sola Gratia não necessita de ser atualizada na Igreja dos nossos dias? Ou estamos substituindo-a pelas ações de caridade, pelas IPPS, pelo nosso comportamento ético e moral ou pela partilha dos nossos bens com ao mais necessitados? Tudo isto é muito válido, mas será suficiente? Quantos não cristãos o fazem melhor que muitos cristãos! Lutero continua hoje a perguntar-nos: onde está a tua Fé? Como sentes e vives a presença da Graça de Deus na tua vida e na vida e ação da Igreja? Não serão estas questões importantes para serem discutidas no diálogo ecuménico atual?

PS – quando falo de Lutero e de ecumenismo vem-me sempre à cabeça uma pergunta que dirigi ao Papa Francisco quando participou na cerimónia de abertura das celebrações do quinquagésimo aniversário da Reforma protestante. A pergunta era, e continua a ser esta: “O seu antecessor Leão X, com a bula Decet Romanum Pontificem de 1521, excomungou Martinho Lutero. Não seria uma participação ecuménica muito significativa que o atual Papa anulasse essa excomunhão?”

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