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A igreja e o dinheiro: fundamentos bíblicos

Para sabermos como deve situar-se a Igreja em relação ao dinheiro, sublinhemos desde logo o ensino de que a Igreja é o Corpo de Cristo (I Cor. 12,27) e o seu modo de pensar e agir têm de ser determinados pelo modo de pensar e agir do Senhor, conforme nos é revelado nas Escrituras.

Falar da atitude que a Igreja ou os cristãos individualmente devem ter em relação ao dinheiro é falar da atitude que Cristo tem nos Evangelhos em relação ao mesmo assunto, porque ser Igreja de Cristo é ser o povo que segue a Cristo (João 10,4,27), implicando o seguimento a ideia da imitação (I Cor. 11,1; Ef.5,1; Fil. 2, 5). Ora, as Escrituras falam-nos do Cristo que nasceu e viveu pobre, que anunciou o Evangelho aos pobres (Mateus 11,5), e proclamou a pobreza como bem-aventurança (Mateus 5, 3; Lucas 6,26). O leitor da Bíblia não tem dificuldade em perceber que estava certa a Teologia da Libertação quando falava da “opção de Cristo pelos pobres” e da consequente necessidade de que a Igreja não seja apenas uma Igreja com os pobres ou para os pobres, mas de ser a Igreja pobre e dos pobres.

O dinheiro é uma invenção inteligente do  homem para a organização das sociedades e em princípio não há nenhum erro em utilizá-lo. O que é condenado é o “amor do dinheiro”, a ganância, (I Ped. 5,2; I Tim. 6,10), não o dinheiro em si mesmo.

Até no grupo inicial formado por Jesus e seus apóstolos houve necessidade de usar dinheiro (João 12, 6), certamente obtido através de ofertas. A Igreja primitiva de Jerusalém é descrita como uma comunidade que conheceu a necessidade de fazer dinheiro com a venda de “propriedades e fazendas” para socorrer os mais necessitados (Actos 2,45;6,7).

E quando os problemas materiais da Igreja de Jerusalém aumentaram com a fome que sobreveio, o apóstolo Paulo levantou entre os cristãos da Ásia Menor uma coleta a favor dos “santos de Jerusalém” (I Cor. 16,1ss), usando-se aqui “santos” no sentido de “cristãos”, “membros da comunidade”, mas obviamente era a “santos” pobres que o dinheiro se destinava, e pobres eram nessa altura, muito provavelmente, a quase totalidade dos cristãos, incluindo os apóstolos. Por esses dias Pedro disse a um coxo mendigo: “Não tenho prata nem ouro” (Actos 3,6). Uma Igreja pobre diante do homem pobre, numa perspetiva do nosso tempo da economia de especulação financeira em que a falta de dinheiro é vista como a impossibilidade de agir, o que não aconteceria se a Igreja, como Pedro, não tivesse prata nem ouro mas tivesse a força para dizer ao que coxeia “Levanta-te e anda!” – e não forçosamente ao coxo fisicamente mas ao homem que caminha inseguro e sem esperança na estrada da vida.

Cada cristão, a Igreja como um povo, devem ter bem presente que o dinheiro que têm está sob esta palavra vinda pelo profeta Ageu: “Minha é a prata,e meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos” (Ag. 2,8). O modo como usamos o dinheiro que chega a nós tem de ter em conta que não somos, Igreja e crente, senão mordomos, responsabilizados pelo património d’Aquele a Quem tudo pertence (Salmo 24,1). O Senhor não se deleita com sacrifícios nem holocaustos mas quer que andemos de coração quebrantado e contrito e que pratiquemos a justiça (Salmo 51,16; Amos 5,24). Nesta perspectiva, percebe-se, por exemplo, que não se trata de o cristão contribuir com dez por cento dos seus proventos para a sua Igreja (prática do Antigo Testamento), mas de se oferecer a si mesmo, oferecer tudo quanto tem e é. Mas isto implica também, naturalmente, que as Igrejas devem ser altamente responsáveis no modo como administram a “prata e o ouro” que lhes é entregue. Tem sido escandaloso saber pelos meios de comunicação como Igrejas modernas espoliam ingénuos com dízimos e ofertas generosas para que os seus pastores vivam em casas ricas, transportando-se em carros de luxo e usufruindo salários de executivos. O chefe de uma Igreja desse tipo apresentou-se para dirigir num culto vestindo um fato caríssimo, de alta marca. Como alguém manifestasse surpresa, explicou: “Não se admirem de me verem vestido como uma alta personalidade, pois eu sou um embaixador do Deus Todo-Poderoso!”. O problema é que o Senhor Todo-Poderoso veio a nós num homem comum, pobre e fraco, que disse: “Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10,44-45). É de Cristo crucificado que os cristãos são embaixadores (Efésios 6,20). E é só nessa perspectiva que a Igreja e os cristãos podem ser luz num mundo em que Mamon é senhor.

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