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Ressurreição, uma história verdadeira?

Há uns anos tive o privilégio de participar num encontro de formação para pastores, na Suíça, onde esteve, como conferencista, Daniel Marguerat, teólogo e, naquele tempo, professor do Novo Testamento na Universidade de Lausanne. Ele ofereceu-nos um pequeno livro, acabado de publicar, com o título “Résurrection, Une histoire de vie” (Editions du Moulin, Suiça, 1991), que tem sido para mim muito inspirador e que já reli várias vezes.

São de um capítulo desse livro as pistas de reflexão que aqui compartilho.

Não há, nos Evangelhos, testemunhos da ressurreição feitos na primeira pessoa, pois nem as mulheres nem os discípulos, principais atores destas narrativas, nos contaram diretamente as suas experiências com Jesus ressuscitado.

É Paulo, que na defesa do seu apostolado, afirma a sua experiência com Cristo ressuscitado (I Cor 9:1) e junta o seu nome à lista, por ele citada, daqueles a quem Jesus apareceu (15:8).

Paulo cita no início do cap. 15 (v.3a-5), o que é considerado um dos mais antigos credos da Igreja, devendo ser datado dos anos 40, portanto ainda muito próximo dos acontecimentos, e nele encontramos duas menções da morte e duas menções da ressurreição.

Duas menções da morte, a deixar clara a ideia de que não foi uma mistificação, uma encenação: “morto e sepultado”. Duas menções da ressurreição, “A sua morte não foi um simulacro, nem a sua ressurreição uma reanimação”, escreve Marguerat.

“Ressuscitou ao 3º dia, segundo as Escrituras” – a que escrituras se refere o credo? O autor sugere que a origem pode estar na profecia de Oséias 6:2, quando o profeta anuncia que a ira de Deus por causa da infidelidade do povo, seduzido pelo culto a Baal, passará e Deus agirá rapidamente em favor dos seus (talvez em contraste com os deuses da natureza, que levavam meses a “renascer” do inverno à primavera). O “terceiro dia”não terá assim tanto um sentido cronológico, mas um mais teológico: símbolo da rapidez com que Deus agiria para restabelecer os laços com o povo, manifestando o seu Reino. Os cristãos verão aqui uma profecia da Páscoa. “Dizer que Cristo se levantou da morte ao terceiro dia, é confessar que o seu destino nos revelou a palavra última de Deus” (Marguerat). Essa palavra é Vida.

O autor sugere uma mais precisa compreensão da última afirmação do credo. As nossas traduções dizem “foi visto”, mas o sentido será antes “ele se fez ver”, no mesmo sentido de Gén. 12:7, “Deus fez-se ver a Abraão” – “E lembremos que na fé hebraica ver a Deus nunca é contemplar a sua face, mas escutar a sua palavra. Acontece o mesmo com as narrativas de “aparição” do Ressuscitado, onde ele nunca é descrito, mas onde a sua palavra o faz ser reconhecido”. E a iniciativa é sempre de Cristo e não das testemunhas – a todos elas foi dado ver, e é isso que atesta a ressurreição.

Mas poderemos nós provar a ressurreição? Parece óbvio que a resposta é não!...

Notemos que tanto os textos dos Evangelhos como o antigo credo citado por Paulo, estão de acordo numa constatação: o Cristo ressuscitado só “se faz ver” por aqueles que são crentes e esta linha de pensamento é mantida em todo o N.T. Isso é também o que afirma Pedro, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos ((10:40-42).

Mas Paulo ousa apresentar “provas”: primeiramente a sua palavra – “por último fez-se ver por mim” (15:8); depois a sua obra, na qual a Graça e o poder de Cristo se manifestam – “Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã” (15:10). Paulo refere-se certamente ao sucesso sem paralelo da sua obra missionária, convidando os Coríntios a ver nela, de que eles são parte, o sinal do Cristo vivo e da eficácia da Sua presença, e a discernir, neles mesmos e na sua Fé, os efeitos da ressurreição. É aí que Paulo coloca o lugar da “prova”. Escreve Marguerat que o sinal da ressurreição “é preciso apercebê-lo na eficácia de uma palavra, na obra da graça, no contágio do perdão. É por isso que Paulo alonga até si mesmo a cadeia daqueles a quem Ele se fez ver. A sua visão é um traço de união entre as primeiras aparições e a existência dos Coríntios; mas sobretudo é garantia de uma força de vida que chegou até eles e manifestou a sua fecundidade fazendo surgir a fé. (…) Antes de ser um objecto de crença, a ressurreição é o lugar da fé, o lugar onde a fé nasce. Identificar em si uma partícula de fé, é experimentar o efeito da Páscoa. (…) A boa nova da Páscoa não é um fruto todo maduro para trincar: pelo contrário é um convite a participar no seu processo de maturação. Crer na ressurreição necessita de uma prova por um acto: ter confiança num Deus que levanta, que coloca de pé, mesmo depois de uma derrota total. Crer nisto é refazer o gesto de Paulo: é juntar à lista das testemunhas prestigiadas o seu próprio nome.”

Crer na ressurreição é experimentar Cristo em nós! Deste modo nós, os que cremos, somos a prova da ressurreição!

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