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Orar é ver, ver o que ainda está invisível

A oração traz-nos luz e discernimento - pois é  no contexto da oração que o Espírito Santo de Deus nos vai guiando, tornando-nos verdadeiramente filhas e filhos da luz (Ef.5:8).

A palavra que provem de Deus é uma palavra que age na vida das pessoas e no mundo, desviando-nos da nossa vã existência e dando-nos uma nova consciência e uma nova atitude perante a vida, "vede prudentemente como andais, não como néscios (sem entendimento), mas como sábios". Esta sabedoria de vida pode ser-nos transmitida se a pedirmos em oração, como diz Tiago: “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” (1, 5)

No cego do texto do Evangelho (Jo 9), a ação da palavra de Cristo faz com que uma pessoa, desde sempre mergulhada nas trevas, veja de imediato a luz. Como seria a sensação? Certamente a mesma sensação de renascer para a vida – depois de enterrado o pecado, que nos leva para longe de Deus. É como se passássemos literalmente da morte para a vida – “das trevas para a luz”, expressão usada tanto pelo evangelista João, como pelo apóstolo Paulo.

A oração é um caminho que nos pode levar da obscuridade, da dúvida persistente ou da recusa em saber, para a luz da fé. A dúvida e a recusa são configuradas na atitude dos vizinhos do cego e a dos fariseus; a fé, se bem que incipiente, é a do ser humano a quem foi restituída a vista de uma forma completa e extraordinária.

Também a nossa fé pode estar por vezes debilitada. No meio dos dramas da vida, quando precisamos desesperadamente da intervenção de Deus, clamamos como o pai do menino endemoninhado: “Senhor, eu creio, ajuda a minha incredulidade!” (Mc 9, 24). A fé e a esperança andam de mãos dadas.

A nossa visão pode estar temporariamente enfraquecida, mas nesses momentos sombrios o Senhor estende a sua mão para nós e vai retirando as “cataratas” que embotam a nossa visão espiritual. É aí que a oração de confissão tem lugar na nossa vida. A oração abre-nos caminho para o perdão e ajuda-nos a recuperar a nossa visão de Deus, capaz de transformar igualmente a nossa visão dos outros e do nosso mundo em geral.

Jesus vê a cegueira dos que se aproximam, tateando no escuro; Ele toca os seus olhos e envia-os ao tanque de Siloé para que vejam: “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. Ele é a sua e a nossa luz. Perante Jesus Cristo, reconhecemos como o Salmista, que ora a Deus em pura contemplação, “Senhor, em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz”.

Orar é “ver”; ver a luz de Deus, transformando a nossa vida à medida que o nosso diálogo com Ele se desenvolve e se aprofunda num louvor e numa prece incessantes. Orar é “ver” e ver, com a sabedoria por Deus concedida, é viver em esperança, é caminhar em direção a Deus! Quem crê, ora, e passa a “ver” aquilo que é invisível aos olhos dos que resistem à fé.

Aqueles e aquelas que antes não viam, pela intervenção da palavra poderosa de Cristo, passam a ver; mas aqueles que não O vendo, insistem que a sua visão, a “carnal”, é que é a correta. Esses continuam cegos: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos”.

Os discursos da cegueira são muito comuns hoje em dia. Discursos de quem pensa que vê e sabe, mas que continua orgulhosamente a tatear no escuro. “Maior cego é aquele(a) que não quer ver”, diz o ditado popular.

Orar é “ver”, reconhecer a luz e refleti-la na sua vida e na dos outros.

“Andai como filhas e filhos da luz, aprovando o que é agradável ao Senhor…entendei qual seja a vontade do Senhor…enchei-vos do Espírito, falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais: cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Ef 5, 8.10. 17-20).

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