Cristianismos para o séc. XXI
A maior religião mundial do século XXI é o Cristianismo ou em maior rigor, a dos Cristianismos, dada as suas imensas versões e tonalidades. Hoje, existem cerca de dois biliões de cristãos espalhados por todo o globo.
Contudo, na Europa, vários indicadores como a identidade, a prática e a crença religiosas, por regra em decréscimo geracional, parecem apontar para uma progressiva secularização e mesmo nos EUA, apesar do vigor religioso se manter, diminui o número daqueles que se identificam com uma determinada denominação. Tanto num lugar como noutro, são os protestantes e evangélicos históricos (presbiterianos, luteranos, episcopais, metodistas) os mais penalizados.
Lembremos que a Europa tem uma herança cultural assente em três pilares: monoteísmo judaico-cristão, racionalismo grego e modelo de organização herdada do império romano. São estes os pilares remotos sobre os quais assenta aquilo que designamos como modernidade. Mais recentemente foram seus impulsionadores a Reforma Protestante, o Iluminismo, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e o triunfo do racionalismo e do pensamento científico. Todas estas mudanças provocaram uma perda sucessiva da importância da religião na sociedade e o pensamento dominante é o de que a secularização é intrínseca ao processo de modernização.
De facto, temos tendência a ver os padrões da vida religiosa na Europa como um protótipo, como um modelo que virá a ser seguido pelo resto do mundo. Mas porque não fazer o exercício inverso e concebê-lo como a exceção? Importa, por isso, questionar se a modernidade é concomitante da secularização, ou seja, se aquilo que aconteceu no velho continente sucedeu igualmente noutros lugares do mundo quando entraram em processos de desenvolvimento e de modernização. Nos EUA, por exemplo, o iluminismo assentou na "liberdade para crer" - não na "liberdade de crer" como aconteceu na Europa - e atuou através da religião mais do que contra ela. O grande crescimento económico desse país coincidiu com ondas de forte avivamento religioso e de expansão missionária. O mesmo está a acontecer no Brasil ou na Coreia do Sul.
O intelectual israelita Shmuel Eisenstadt defendeu o conceito de modernidades múltiplas, indo contra as teorias clássicas de modernização, assentes na convergência das sociedades industriais e rompendo com a ideia de que o programa cultural da modernidade, tal como se desenvolveu na Europa, iria reproduzir-se em todas as sociedades modernas ou em vias de modernização. Ele sugere que a melhor forma de se compreender o mundo é olhando para a reconstituição permanente "da multiplicidade de programas culturais".
O grande problema do Cristianismo europeu é que ele próprio, por via dos seus dirigentes hierárquicos e pela cultura que se foi instalando nas igrejas adotou uma autocompreensão secularista. Disto de outro modo, usa a secularização como elemento explicativo do seu declínio e decadência. No mundo protestante, em particular, isso é agravado por um discurso em que os pastores se queixam de que não têm membros que os ajudem e por membros que acham que o Pastor não trabalha para que a sua congregação cresça (ou que, pelo menos, não continue a diminuir). Trata-se de um círculo vicioso ou de uma argumentação viciosa onde se está sempre a regressar ao ponto de origem, sem que nenhuma das partes reconheça que há uma falha lógica no raciocínio.
O que acontece é que existem duas economias religiosas na Europa lado a lado: uma de utilidade pública baseada na religião herdade e outra de mercado (ainda) incipiente. A religiosidade como utilidade pública é, segundo a socióloga britânica Grace Davie, uma "vicarious religion", uma "religião de paróquia" em que um grupo restrito de pessoas zela, produz rituais ou mesmo acredita pelos outros. É comum a ideia de que a igreja deve estar ali para quando se precisar dela. Isto aplica-se não só às igrejas de Estado como às minorias há muito estabelecidas num determinado país. É o caso dos protestantes e de alguns evangélicos clássicos em Portugal.
Ora, esse modelo de religiosidade está em vias de extinção. Contudo, até à data igrejas históricas têm-se recusado a admitir isso e preferem continuar a reproduzir o tipo de argumentos viciados, atrás referidos, que, por sua vez originam uma clima depressivo que se estende desde as reuniões da Cúria Romana até à pequena congregação protestante reduzida a cinco membros acima dos setenta anos de idade. Conclusão, o próprio Cristianismo europeu reforça o processo de secularização.
Contudo, há novos indicadores que coexistem com os da secularização. O número dos que são ativamente religiosos irá e está a subir (dentro do próprio catolicismo) e as igrejas irão inevitavelmente trabalhar dentro de um modelo de mercado. Novas formas de religião emergem na Europa vindas de fora ou não. De fora vem o Islão, as religiões orientais, os cristianismos africanos, latino americanos (principalmente do Brasil) na sua versão evangélica pentecostal mas também católica (renovação carismática). De fora, vem ainda o neocalvinismo nova-iorquino, profundamente urbano e alternativo, transdenominacional patente em projetos como o "City to City". Afinal, não são só os neopentecostais que crecem!
De dentro, encontramos novas igrejas livres ou não denominacionais e ensaios de formas criativas de ser igreja dentro das igrejas tradicionais, principalmente no protestantismo mas também no catolicismo e mesmo em algumas congregações ortodoxas. O que acontece verdadeiramente inovador situa-se a nível local, muitas das vezes com conexões globais. A tendência será a de no contexto de uma mesma denominação encontrarmos congregações em decadência mas outras com grande vitalidade e que não obedecem a nenhum modelo estandardizado de igreja, antes adaptando-se aos desafios da comunidade envolvente. Umas apostam no serviço comunitário, outras na cultura e na arte, ou na multiculturalidade tendo os imigrantes e os estudantes em mobilidade como principais frequentadores. Uma coisa todas estas igrejas têm em comum: um profundo espírito de missão que mobiliza todos os crentes e a substituição da figura do pastor "ministro" pela do pastor "missionário".
Tal como sustenta o historiador Diarmaid MacCullogh, "a história do Cristianismo primitivo diz-nos que a fé cristã é, de facto, largamente diversa com muitas identidades. A história do Cristianismo tem sido um renascimento sem fim do encontro com Jesus Cristo, o filho ressurreto de Deus". Esta experiência sempre foi variável em termos geográficos, culturais e sociais. O mundo contemporâneo, global e diverso, defende e revê-se na diferença.
O sucesso da expansão da Boa Nova no primeiro século resultou do facto de cada cristão ser ao mesmo tempo um missionário. Isso fazia parte do ADN de cada convertido. A par dos apóstolos, foram também protagonistas do anúncio soldados, mercadores, marinheiros, escravos, homens e mulheres e os cristãos reuniam-se em sinagogas, casas de família, grutas, ao ar livre. Religião é, acima de tudo, comunicação. E eles sabiam comunicar. Algo semelhante aconteceu nos grandes despertares dos séculos XVIII e XIX. Algo semelhante está a acontecer no século XXI: em África, no sudoeste asiático, na América Latina. Curiosamente, até na Europa.